Escrever sobre o projeto Selva Boliviana é muito mais que um prazer, é, na realidade, reviver o início de uma evangelização. É reviver e trilhar caminhos do início da evangelização quando chegaram os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren. Sou sincero em dizer que viajar para o estado do Acre para fazer mais um documentário seria um tanto comum e talvez sem nenhuma forte emoção que desse aquele frio...

Escrever sobre o projeto Selva Boliviana é muito mais que um prazer, é, na realidade, reviver o início de uma evangelização. É reviver e trilhar caminhos do início da evangelização quando chegaram os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren.

Sou sincero em dizer que viajar para o estado do Acre para fazer mais um documentário seria um tanto comum e talvez sem nenhuma forte emoção que desse aquele frio na barriga. Pelo menos para mim uma missão, para ser contagiante, tem que causar emoção a cada momento, é preciso viver com os nervos à flor da pele.

É claro que cheguei de madrugada em Rio Branco, capital do Acre, e logo fui recepcionado pelos missionários Luiz e Ivonete. Na mesma madrugada partimos para Plácido de Castro, uma pequena cidade a mais ou menos 100 km da capital. Não poderia nem imaginar o que aconteceria ali a partir da manhã seguinte, quando me deparei à beira do Rio Abunã, e vi um pequeno barquinho de madeira, coberto por uma lona azul, cheio de sacos, um pequeno fogãozinho, garrafas de gás e um pequeno espaço para se sentar.

E todos à beira do rio ansiosos para partir, dizendo que seria uma viagem muito emocionante e abençoada por Deus.

Até aí tudo bem, cheguei a pensar que iríamos do outro lado do rio entregar algumas doações e pronto. Mas, de repente, a missª Ivonete Queiroz me diz assim: “Então, Pr. Ivandro Morim, o senhor está preparado para viajar conosco nesse barco para a selva da Bolívia? Serão quatro dias nesse barco, depois vamos pegar uma voadeira e viajar mais quatro no igarapé!”.

Confesso que suei frio naquela hora, não tive reação qualquer, quase não acreditei que ficaria quatro dias ali dentro daquela pequena embarcação; não fiquei surpreso por ser uma viagem no rio, porque já viajei muitas vezes nos grandes rios do Amazonas, mas viajar todos aqueles dias dentro daquele barquinho? Isso, sim, não tinha vivido ainda!

Eu me enchi de perguntas: como e onde vamos dormir? Como vamos comer? Como vai ser essa viagem? Mas é claro que eu não podia me mostrar fraco bem naquela hora que os olhos da missionária brilhavam de alegria. Minha resposta foi: “Que maravilha, irmã! Vai ser uma viagem maravilhosa, com certeza!”.

Amados, confesso que quando o pequeno barquinho começou lentamente a navegar nas águas do Abunã meu coração bateu mais forte, não pela emoção da viagem, mas pelas incertezas da mesma.

Depois de umas quatro horas no rio vi que a velocidade do barco era a mesma do início, e não tive outra alternativa senão aceitar e desfrutar daquele momento que para mim seria único.

Quando estava ficando exausto da viagem devido ao mau acomodamento e ao calor que era muito forte fizemos a primeira parada para almoçar. Foi algo incrível. A bordo do barquinho havia dois homens que eram os guias e eram pau para toda obra! Encostaram na barranca do rio, desceram com facões e começaram a abrir caminho na mata até encontrar uma velha casa abandonada. Ali começaram a descarregar o fogão, panelas, sacos, e acomodá-los no interior do barraco. Rapidamente as missionárias Ivonete e Inês começaram a cozinhar e fizeram uma deliciosa refeição. Apenas acabamos de comer e os dois homens começaram mais uma vez a carregar o barquinho para seguir a viagem que seria a mais emocionante que já havia feito em toda a minha vida de repórter dos GMUH.

A partir daquele almoço estaria prestes a viver a maior emoção missionária de toda minha vida, eu conheceria a partir daquele dia um povo abandonado no meio da selva, homens, mulheres e crianças, sem nacionalidades, sem documentos que vivem como eremitas no meio das matas da selva boliviana. Veria com meus olhos um povo não civilizado, que não falam nem o espanhol nem o português direito. Mas que estavam experimentando uma nova vida através da missª Ivonete, que pregava o evangelho de Jesus Cristo pela primeira vez para eles.

Pude viver a emoção de Daniel Berg e Gunnar Vingren no meio das matas anunciando o Reino de Deus pela primeira vez ao povo ribeirinho.

Quando saí de Camboriú, SC, a missª Elba Bernardino deu-me uma bolsa de roupas de inverno, e eu pensei que aquilo seria uma loucura, levar roupa de inverno para uma selva que faz mais de 40 graus de calor! Mas no meio do rio, já em território boliviano, pequenas embarcações desciam o rio para trocar a castanha por comida, paravam para abraçar e conversar com a missionária, ali mesmo dentro do pequeno barco ele se transformava em uma igreja ambulante. Ela ficava de pé e pregava para os solitários, orando e dando comida aos mesmos.

Confesso que meu coração a cada minuto parecia que iria explodir de viver uma emoção única, eu podia ver no rosto daquelas pessoas solitárias a sede de salvação e alegria de estranhos estarem dando atenção a eles.

Contemplei na proa do pequeno casquinho (é assim que é chamada a pequena canoa que quase afunda com tanto peso) o olhar de uma menina de não mais de cinco aninhos de idade que brilhou quando Ivonete lhe deu um pedaço de pão e uma linda bonequinha para ela brincar. Sinceramente creio que fora a única boneca que ganhara em toda a sua pequena vida.

Oramos naquele barco de uma forma tão intensa que eu não sabia se chorava, filmava ou fotografava aquele momento que não poderia ser esquecido.

A noite caiu rapidamente e estávamos próximos à perigosa fronteira no meio da selva, que nos levaria a 100% território boliviano, e por estarmos tão perto da fronteira não era permitido dormir por ali devido ao perigo de ataques dos narcotraficantes e contrabandistas de armas.

Encontramos mais uma vez uma casa muito velha, abandonada ao lado do rio, e ali o miss. Luiz montou todo o equipamento que levara para gerar energia e para carregar as baterias das câmeras, além de instalar um bico de luz.

Enquanto isso as missionárias começaram a fazer o nosso jantar ao lado de uma pequena fogueira para espantar os insetos, que eram milhares; parecia que todos os insetos da Amazônia estavam ali de tanto que tinha.

Já era tarde da noite quando fizemos um culto antes do jantar. Os leitores não queiram saber o que é cultuar a Deus no meio do nada, o único som que havia ali era de nossas orações, hinos e animais noturnos. Confesso que senti Deus de uma maneira impar.

Ali seria a minha primeira experiência em dormir em uma rede no meio da selva, cercado por um medo totalmente diferente de todos os que já tivera em minha vida.

Creio que eram cinco horas da manhã quando levantamos para seguir viagem e passar a fronteira; não poderíamos de forma nenhuma perder mais tempo.

Quando vi de longe, no meio da mata verde, uma pequena e velha bandeira boliviana e alguns soldados na barranca do rio eu temi, porque era a primeira vez que uma equipe de TV estava passando naquele lugar tão isolado da civilização. Escondi minhas câmeras embaixo de uma lona, sem as desligar, pois eu precisava registrar aquele momento em que Ivonete negociaria com os militares a nossa passagem pela fronteira. Por incrível que pareça alguns pacotes de bolacha e uns pedaços de carne resolveram nossos problemas. Militares no meio da selva passando fome, isolados do mundo civilizado.

Não muito tempo da fronteira paramos na primeira casa que encontramos, e quando as crianças ouviram o motor de nosso barco saíam correndo ao nosso encontro, porque chegar um barco naqueles lugares era algo quase impossível. Em cada parada Ivonete pregava e orava pelas pessoas, e depois realizava creio que o único natal das vidas delas, entregando brinquedos e aquelas roupas de inverno que mencionei anteriormente, que seria um abrigo não para o frio e sim uma proteção contra os insetos que comiam a pele das crianças ocasionando feridas pelo corpo todo.

Eu não sei se algum dia na sua vida você tenha dito para você mesmo se algo que já tenha feito valera a pena. Mas naquele dia, para mim em especial, estava valendo a pena cada minuto de calor, cada picada de inseto, a noite mal dormida e canseira de ficar sentado em uma madeira o dia inteiro. Valia a pena ver aquelas pessoas aceitando Jesus Cristo como Salvador, valia a pena ver aqueles crianças correrem de um lado para outro com sapatos, roupas novas e carrinhos e bonecas em suas mãozinhas feridas pelas picadas de insetos.

Você não faz noção o que é ver o sorriso nos rostos daquelas pessoas, um sorriso que dizia tudo, tudo mesmo, desde muito obrigado a não sei o que fazer para agradecer.

Queria continuar para no meio do rio ver os missionários pregando a palavra, orando pelas pessoas e as mesmas deixando o Espírito de Deus entrar em suas vidas.

Em um determinado momento de nossa viagem, depois de parar e ir a várias casas nas barrancas do rio vi de longe um garoto em uma pequenina canoa talhada num troco inteiro de árvore, e notei que aquele menino remava com muito sacrifício. Olhei no meio da mata e vi uma senhora negra e muito magra correndo em nossa direção e gritando: “Graças a Deus tem gente vindo aqui!”.

Aquilo me tirou o fôlego, pude ver três pessoas vivendo embaixo de troncos de árvore coberto por folhas e pedaços de plásticos, a estampa da fome, miséria e abandono, tanto social quanto espiritual. Quando descemos, corri com minha câmera ligada para ver o encontro de Ivonete com ela; aquela senhora não deixava de olhar dentro do barco, procurando algo de comer. À medida que fomos nos relacionando com aquela família podemos ver literalmente o valor de um missionário apaixonado pelos perdidos da terra.

Ivonete os abraçou, orou com eles e os ganhou todos para Jesus, depois disto eu assisti a maior obra de caridade de toda minha vida: Ivonete, Inês e Luiz pegaram alguns sacos e começaram vestir aquela família com as roupas que levamos; depois de distribuir roupas para todos Luiz sobe a barranca do rio com sacos de comida na cabeça para entregar para aqueles miseráveis que vivem fora dos olhares da sociedade. Aquela senhora, que estava com sua família naquela mata havia mais de doze anos, gritava: “Obrigado, meu Deus, por ter enviado pessoas tão boas aqui onde moramos; obrigado, Deus, por não se esquecer de nós, que somos tão pobres e esquecidos”. Ela disse que nunca havia sido visitada por ninguém em toda sua vida.

Tudo isso que estou narrando aqui está registrado no DVD projeto Selva Boliviana. Estava vivendo uma emoção após outra. Já estava anoitecendo e tínhamos que rapidamente conseguir um local seguro para dormir quando vimos de longe uma fumaça e partimos para lá para ver o que era aquilo; encontramos uma casinha e com o barulho de nosso barco crianças e alguns adultos vieram à beira do rio para ver quem era.

Antes mesmo de parar o barco ali estava Ivonete pronta para falar de Jesus para aquelas pessoas. Na beira do rio mesmo ela fez o natal missionário de fé distribuindo brinquedos e roupas. E pediu autorização para nossa equipe dormir por ali, que era mais seguro. Prontamente o morador daquele lugar nos ofereceu um ranchinho em que guardava ferramentas para passarmos a noite, já que era menos perigoso que na mata.

Cansados da viagem levamos nossas bagagens até o rancho. Meu Deus, aquela noite seria mais uma daquelas que a gente não se esquece nunca. Quando chegamos ao rancho uma família nos pediu algum tipo de remédio que arrancasse a dor, porque havia um homem muito mal no outro rancho. Rapidamente o miss. Luiz foi até lá e eu com minha câmera ligada atrás dele vimos um homem deitado no chão, embaixo de um mosquiteiro, se retorcendo de dor.

Luiz arrancou o mosquiteiro, fez uma massagem naquele homem, e em seguida foi realizado um culto naquele barraco onde Deus, de uma forma linda, se manifestou.

Antes que o dia amanhecesse tínhamos que partir para visitar outras localidades e assim seguir nosso roteiro. Vou tentar ser mais sucinto. Quando partimos saímos do Acre, entramos em território boliviano e de repente estamos saindo da Bolívia e entrando no estado de Rondônia, onde paramos nosso barco e pudemos ver dezenas de crianças correndo ao nosso encontro, crianças magras, doentes e com feridas em todo o corpo, também devido às picadas dos insetos. Ali mais uma vez foi distribuída comida, roupas, brinquedos e feito orações pelas pessoas.

Quando chegamos a Rondônia nos vimos diante de um problema enorme: a partir dali o barco não ia mais, teria que ser em terra até voltarmos ao estado do Acre. Só Jesus poderia nos ajudar ali no meio do nada. Quando estávamos nos preparando para colocar nossas bagagens nas costas e caminhar mais de 12 km a pé apareceu um velho caminhão que estava à procura de castanhas, e mais uma vez Ivonete entra em ação para conseguir uma carona. Com muita conversa ela conseguiu que aquele homem nos deixasse numa pequena vila a 9 km dali; foi o suficiente para encontrarmos alguns missionários que nos dessem água e comida.

Creio que era perto da meia noite quando conseguimos alugar uma velha camionete para nos levar de volta a Plácido de Castro, no Acre.

Chegamos de madrugada, e eu não pensava em outra coisa senão num bom banho e roupas limpas. Por incrível que pareça apenas amanheceu o dia e Ivonete e os demais missionários já batiam na porta do pequeno quarto em que eu estava dormindo: “Vamos, pastor, temos que continuar nossa viagem”, disse a irmã Ivonete.

Ela já tinha arrumado uma lancha para que fôssemos ao igarapé do Tucurichan, um lugar onde só entrava lancha pequena. Imaginem os senhores ficar quatro dias sentado em uma pequena tábua e dormindo no meio da mata, depois disso a gente quer descansar, mas Ivonete não, ela queria seguir o roteiro que havia programado.

Se vocês acham que a emoção estava no rio Mamu é ai que se enganam. A partir daquele momento, dentro daquela lanchinha de menos de três metros, viveria a maior aventura missionária da minha vida. Mais uma vez entramos no rio Abunã até a entrada do igarapé Tucurichan; quando chegamos àquele igarapé vi um risco no meio da selva boliviana, cabia apenas a lancha e mais nada; a cada instante ela encalhava nos troncos de árvores que estavam submersos e cada vez que acontecia isso todos tínhamos que descer e cortar galhos com facões e empurrar para continuarmos nossa viagem, que estava programada para dois dias, mas devido ao igarapé estar muito baixo não conseguíamos velocidade e a cada instante tínhamos que empurrá-la, arrancando-a de cima dos troncos e abrindo caminho no meio da mata para arrastá-la. Foram dois dias subindo o igarapé. Veja bem a estratégia da missionária para evangelizar: ela passava nas casas à beira do igarapé e dava de presente pequenos rádios e pilhas já sintonizados no programa que ela mesma fazia em rádio locas, e com isso as pessoas ouviam o evangelho, aceitavam a Jesus e cada vez que ela iria subir o rio ela avisava pelo rádio e todos a esperavam à margem. Isso é que eu chamo de estratégia para conquistar vidas para Cristo!

Resumindo, pude ver ali naquele igarapé dezenas de pessoas crentes em Jesus Cristo, que esperavam na missionária uma mudança de vida. Nossa missionária adquire um pedaço de terra e constrói uma pequena igreja, com um lugar para pendurar muitas redes, seria como se fosse um paradouro para os cansados ribeirinhos que viajam dias no igarapé e param para tomar um banho, comer alguma coisa, dormir e seguir viagem no outro dia. E com isso o casal de missionários que está ali prega a palavra, os ensina a ler e escrever, legaliza seus documentos e faz casamento de quase a maioria deles.

Desta forma o Reino de Deus vem crescendo e a obra de evangelização realizada, os missionários que ali estavam voluntários foram assumidos pelos GMUH, e uma viagem que duraria dois dias foi para quatro dias devido às dificuldades e a quebra das paletas do motor.

Mas mais uma vez eu posso dizer: nós somos os Gideões Missionários da Última Hora e estamos produzindo esperanças aos perdidos da terra.