Temos a honra de apresentar aos amantes da obra missionária mais um grande projeto missionário que estamos realizando no Brasil, um Brasil desconhecido por muitos e amado por poucos.

No último mês de outubro fizemos uma maravilhosa viagem missionária a esse lugar tão miserável e pobre: o estado do Piauí, que tem uma linda capital e até muitas árvores que fazem sombras nas belas ruas.

Mas não é assim seu interior, não há praças, nem árvores e muito menos fontes nos pequenos centros, mas sim muita poeira, galhos secos, animais esqueléticos perambulando pelos caminhos e muitos jegues em uma jornada infinita carregando a água que sobrou em algum buraco da última chuva de muitos meses atrás. E é claro que ao seu lado o sertanejo, o lutador, o guerreiro brasileiro que não desiste nunca, que não desiste da vida, porque ainda não chegou o dia de sua morte, que não desiste da água, pois tem vários filhos para dar de beber. Que mesmo sem cair uma gota de água do céu arrisca sua enxada no solo seco na esperança dos grãos de feijão e milho brotarem se por um acaso da vida cair a tão sonhada chuva.

Sertanejos que sentam-se na porta de sua casa na manhã bem cedo e espera o dia acabar para poder voltar a sua rede e sonhar com dias melhores, apenas “sonhar”.

Pois em sua terra, em seu chão, não nasce nada, não cresce nada, mesmo que ele chore sobre ela.

Esse foi o estado do Piauí que encontrei em minha última viagem ao nordeste brasileiro, e esse foi o povo que conheci nesse país desconhecido dos brasileiros.

Mas é claro que nem tudo é tão ruim assim, que nem tudo está perdido, que nem todos desistiram da vida, dos sonhos, de projetar o futuro segundo sua capacidade.

Por que ali encontrei muitas pessoas que são diferentes, que pensam diferente, que vivem de uma forma diferente, mesmo ultrapassando a barreira da fome, miséria e descaso. Conheci crentes, homens com fé em Deus, esperanças na vida e acreditando em dias melhores.

Homens que tiveram suas vidas transformadas pelo poder restaurador de Jesus Cristo, homens, famílias inteiras que foram alcançados pelos nossos missionários.

Falando em nossos missionários quero colocar um nome neles: “caçadores”! Caçadores de almas, que trilham os agrestes espinhosos em busca de almas perdidas, que viajam dias a pé ou nas motocicletas que são enviadas para eles para que possam chegar mais longe. Mas não longe o suficiente para alcançar todos.

Na nossa chegada a Paulistana fomos recepcionados pelo nosso missionário Antonio Carlos dos Santos, mais conhecido por Carlinhos, responsável pelo campo onde estão os outros missionários.

Em um calor de mais de quarenta graus conversamos embaixo de uma única arvore da rua em que mora, onde ele me contava com detalhes a vida do povo nordestino e as grandes dificuldades de se chegar até eles. Dificuldades de se conseguir um meio de transporte rápido, porque com carro não dá para ir, dificuldade de enfrentar o sol causticante, mas a maior delas é a dificuldade de chegar às casas deles e eles não terem um copo de água para oferecer, e muito menos um pedaço de pão.

“Aí a dificuldade passa a ser minha”, disse Carlinhos, “pois eu tenho que tirar do que é meu e da minha família e repartir com eles; contudo, as dificuldades se transformam em milagres, eu reparto com eles e não fico sem”.

Com orgulho e um sorriso inevitável, Carlinhos me mostra as igrejas que construiu e a que ainda está construindo, e me comenta sobre as que ainda vai construir para abrigar o sertanejo que a cada dia vem aos pés de Cristo.

Viajamos a caminho de Bati Maré, um pequeno povoado a quase quarenta quilômetros de Paulistana, estrada extremamente ruim, aonde as únicas formas de se chegar é a pé, de jegue ou de moto, e foi de moto que viajamos com um grupo de irmãos até esse povoado.

No caminho parecia que estávamos em outro país, e a única coisa que mostrava o contrário era quando eles falavam a nossa língua, daí então víamos que estávamos mesmo no Brasil, mas em Brasil miserável, onde a mãe com quatro ou cinco filhos no jeguinho que já estava carregado com galões para buscar água e os menores sentados em seu lombo (os maiores, entre seis e dez anos de idade, caminhando), viajando mais de quarenta quilômetros para buscar uma única água salgada e suja de um poço que estava à beira do caminho.

Chegando a Batimaré encontramos um valente, um caçador, o missionário Trajano de Jesus, responsável por aquele povoadinho, com uma igreja construída com muito sacrifício em um pequeno pedaço de terra que ele ganhou quando chegou ali. Vale a pena ressaltar que ele sozinho arrancou os espinheiros e a construiu.

Me dizia ele que quando chegou ali só havia algumas pequenas casas, com muitos endemoninhados e feiticeiros, além da grande maioria ser formada por alcoólatras.

Mas com um trabalho cheio de amor os visitou, os amou e pouco a pouco está conquistando o pequeno povoado (você pode ver toda essa matéria no DVD do projeto Piauí, que já está disponível).

Realizamos ali o Natal Missionário de Fé, fizemos uma festinha para as crianças, distribuindo caramelos, lanches e refrigerantes. Foi maravilhoso!

E é claro que conhecemos todo o povoado, visitamos quase todos os moradores, onde vimos a verdadeira miséria e a fome que não é “zero”. Mas vimos também o começo de uma prosperidade, o nascimento de uma igreja.

Saindo dali viajamos até Juazeiro do Secundo, onde trabalham os missionários Clayton e Rosilene de Mattos, e podemos ver a alegria do casal desenvolvendo um trabalho fantástico naquele interior, naquelas caatingas ressequidas.

Um casal feliz, feliz por estar fazendo a obra do Senhor e também por ter recebido as doações que lhes foram enviadas: geladeira, bicicleta, dormitório novo, jogo de cozinha e uma motocicleta linda e potente para poderem palmilhar os caminhos do deserto brasileiro.

Nos emocionamos muito ao ver a situação das famílias que lutam para conseguir um copo de água,  e ao ouvir o depoimento de homens como nós, mas que não conseguem alimentar seus filhos, que dependem apenas da ajuda que é enviada pelos Gideões Missionários da Última Hora.

Na sequidão encontra-se esperanças, na morte encontra-se a vida, no fim do túnel encontra-se uma saída. Esse é o trabalho que nós Gideões Missionários da Última Hora vimos realizando no nordeste brasileiro, produzindo esperanças a um povo perdido, perdido em si mesmo, um povo incrédulo, incrédulo por nascimento, sofrido, mas com um coração aberto para o amor.

Com o missionário Walmir Flausino não foi diferente. Realizamos em sua igreja em Alto Vistoso o maior Natal Missionário de Fé já realizado até o momento por nós no nordeste. O natal da comida, o natal de barriga cheia, um natal nunca antes visto por aquelas crianças famintas e desnutridas.

Reunimos mais de quatrocentas crianças junto a seus pais, crianças que faziam até cinco dias que não comiam e fizemos um jantar para todas elas, crianças que nunca haviam comido frango e carne, e comeram até se encherem, e pais que levaram seus filhos para poder comer também.

Um jovem de mais ou menos dezessete anos me chama na porta, no escuro, e me diz: “Senhor, eu sei que não sou criança, mas eu tenho muita fome, sinto fraqueza nas pernas, quase não consigo caminhar de tão fraco que estou. Por favor, me dê um pratinho de comida mesmo eu não sendo criança”. Quando disse que sim, totalmente emocionado, vi que ele segurava em uma de suas mãos a mão de sua mãe, e a mão de sua mãe segurava as mãos de mais três crianças pequeninas. Como não amar essas pessoas, como ignorar nosso povo, nossa gente, gente como a gente, gente como eu e você.

Essa é a nossa missão: amar, proteger, ouvir, e estender as mãos amigas, as mãos dos gideonitas do Brasil e do mundo.

A boa notícia que temos é que a cada dia, a cada mês, a cada viagem que realizamos para atender e conhecer o campo missionário descobrimos que ainda falta muito para fazer e é exatamente por isso que não podemos desistir nunca, e retroceder jamais. Mas uma coisa é certa: o trabalho está cada dia crescendo mais, milhares de almas estão conhecendo o evangelho do Senhor Jesus Cristo, e nós, nós que entramos nessa luta, estamos fazendo nada mais que nossa obrigação. “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”, palavras do Mestre.